Casas Bahia: quando a transformação do negócio muda também o mapa de riscos

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A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia é o capítulo mais recente de uma transformação que começou muito antes de a companhia chegar ao atual cenário financeiro.

Nos últimos anos, uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro precisou responder à digitalização acelerada do consumo, à entrada de novos concorrentes, à necessidade de modernizar sua operação e, ao mesmo tempo, a um ambiente econômico cada vez mais desafiador para empresas dependentes de capital.

A trajetória ajuda a entender como uma transformação empresarial pode alterar não apenas a estratégia de uma organização, mas também o conjunto de riscos aos quais ela está exposta.

Da Via Varejo à transformação digital

A companhia já havia passado por mudanças importantes ao longo de sua história. Em 2012, adotou o nome Via Varejo. Anos depois, diante da aceleração do comércio eletrônico, intensificou investimentos em tecnologia, logística, serviços financeiros e novas plataformas digitais.

Em 2021, Via Varejo passou a se chamar apenas Via, uma mudança que acompanhava a estratégia de construir uma companhia menos associada exclusivamente às lojas físicas e mais conectada à experiência digital do consumidor.

O movimento fazia sentido diante das transformações do varejo. Amazon, Mercado Livre, Shopee e outros grandes players ampliavam sua participação, enquanto o consumidor passava a transitar cada vez mais entre canais físicos e digitais.

Mas transformar uma companhia dessa dimensão envolvia muito mais do que construir um novo canal de vendas. Significava investir em tecnologia, logística, marketplace, serviços financeiros e experiência do cliente enquanto a empresa continuava sustentando uma extensa estrutura física.

Cada uma dessas decisões também trazia novas exposições.

Em 2023, a estratégia mudou novamente

Em 2023, a companhia retomou sua marca mais conhecida e passou oficialmente a se chamar Grupo Casas Bahia. O movimento veio acompanhado do chamado “Back to Basics”, com foco em disciplina na alocação de capital e recuperação da rentabilidade.

A prioridade deixava de estar concentrada apenas na expansão e passava a envolver redução de custos, eficiência operacional e reorganização financeira.

A empresa vinha enfrentando endividamento elevado, margens pressionadas e um cenário de juros altos, especialmente desafiador para um setor que depende constantemente de capital para financiar estoques, vendas a prazo e fornecedores.

Em 2024, o grupo já havia recorrido à recuperação extrajudicial para reorganizar parte de suas obrigações financeiras.

Ou seja, a recuperação judicial anunciada em 2026 não surgiu de forma isolada. Ela representa mais um estágio de um processo de transformação e reestruturação que vinha acontecendo havia alguns anos.

Uma empresa pode continuar vendendo e, ainda assim, aumentar sua exposição

Um dos aspectos mais relevantes do caso é justamente esse. A Casas Bahia não simplesmente deixou de operar.

No segundo trimestre de 2026, a receita líquida ainda cresceu 1,6%, chegando a quase R$ 7 bilhões. Ao mesmo tempo, as despesas com vendas avançaram 17%, para R$ 1,8 bilhão.

O grupo reportou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no período. O número, no entanto, precisa ser analisado com cuidado. Cerca de R$ 9,1 bilhões estavam relacionados a efeitos contábeis não recorrentes que, segundo a companhia, não tiveram impacto no caixa naquele trimestre. Excluindo esses efeitos, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões.

Esse contraste demonstra como a leitura de risco de uma organização dificilmente pode ser feita a partir de um único indicador.

Uma empresa pode continuar vendendo bilhões, manter lojas abertas, preservar clientes e ainda enfrentar uma estrutura financeira cada vez mais pressionada.

Receita, tamanho e relevância de mercado não significam, isoladamente, resiliência financeira.

Quando diferentes riscos começam a se conectar

Talvez o ponto mais relevante do caso seja perceber que os riscos não aconteceram separadamente.

O crédito mais caro pressionou o custo financeiro. Um ambiente de consumo mais fraco afetou a dinâmica do varejo. A necessidade de reorganização exigiu fechamento de lojas, revisão de contratos e redução da estrutura.

Ao mesmo tempo, uma captação internacional planejada pela empresa não se concretizou. A companhia realizou reuniões com investidores do Brasil, Estados Unidos e Europa, mas a operação não avançou.

Individualmente, cada uma dessas situações representa uma exposição. Quando acontecem simultaneamente, podem alterar significativamente a capacidade de resposta da empresa.

É justamente aí que entra um dos conceitos mais importantes da gestão de riscos: interdependência.

Risco financeiro pode impactar a estratégia. Uma decisão estratégica pode aumentar o risco operacional. Uma dificuldade de financiamento pode exigir mudanças na estrutura. Essas mudanças podem afetar contratos, fornecedores, colaboradores e parceiros.

O risco raramente permanece restrito a uma única área.

A recuperação judicial é o evento. O risco começou antes.

Em agosto de 2026, o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas. A medida busca reorganizar os passivos da companhia e preservar a continuidade de suas operações.

Mas, sob a perspectiva de gestão de riscos, a recuperação judicial é apenas o momento em que uma série de exposições se torna evidente para todo o mercado.

Os riscos já existiam anteriormente. Estavam no custo do capital, na estrutura financeira, na necessidade de financiamento, na concorrência, no comportamento do consumidor e nas diferentes decisões necessárias para transformar o modelo de negócio.

Risco não começa quando o problema vira notícia.

E o risco não termina dentro das Casas Bahia

Existe também outra dimensão importante.

Empresas não operam isoladamente. Elas fazem parte de ecossistemas compostos por clientes, fornecedores, instituições financeiras, locadores, transportadoras, prestadores de serviços, seguradoras e parceiros estratégicos.

Quando uma companhia com a dimensão das Casas Bahia entra em recuperação judicial, o evento alcança todos aqueles que possuem algum tipo de exposição financeira à organização.

Esse é o chamado risco de contraparte.

Uma empresa pode estar financeiramente saudável e possuir uma operação eficiente, mas continuar vulnerável caso uma parcela significativa de seus recebíveis dependa de um cliente que enfrenta dificuldades.

O risco pode nascer fora da empresa e chegar diretamente ao seu caixa.

Grandes clientes também representam concentração

Conquistar uma grande conta normalmente significa crescimento, aumento de receita e escala. Mas existe uma segunda leitura que precisa fazer parte da gestão.

Quanto maior a participação de determinado cliente na carteira de recebíveis, maior pode ser a exposição caso aquele comprador deixe de cumprir suas obrigações.

A pergunta, portanto, não é apenas quanto determinado cliente representa no faturamento.

É preciso compreender quanto existe em aberto, qual é a concentração da carteira e quanto de uma eventual perda a empresa teria capacidade de absorver sem comprometer capital de giro, margem ou operação.

Essa análise transforma uma relação comercial em uma discussão sobre risco.

Risco precisa acompanhar a estratégia

A trajetória das Casas Bahia também deixa um aprendizado importante para empresas em processos de transformação.

Quando a estratégia muda, o mapa de riscos precisa ser revisto.

Entrar em novos canais, fazer aquisições, investir em tecnologia, ampliar crédito, mudar a estrutura de capital ou depender de novas fontes de financiamento modifica as exposições da companhia.

Uma gestão de riscos consistente precisa acompanhar essas mudanças e considerar não apenas o cenário esperado, mas também situações menos favoráveis.

  • O que acontece se o crédito ficar mais caro?
  • E se uma captação planejada não ocorrer?
  • Se o crescimento projetado não acontecer?
  • Se um fornecedor crítico interromper sua operação?
  • Se um grande cliente deixar de pagar?

A resposta não é evitar riscos. Empresas precisam assumir riscos para crescer.

A questão está em compreender quais riscos fazem sentido manter, quais podem ser mitigados e quais deveriam ser transferidos.

É nesse contexto que o Seguro de Crédito ganha relevância

Quando parte significativa do risco de uma empresa está relacionada aos valores que ela possui a receber de seus clientes, o Seguro de Crédito passa a ocupar um papel importante dentro dessa arquitetura.

Ele não substitui uma política estruturada de análise de crédito. Ele complementa essa gestão.

O Seguro de Crédito protege empresas contra perdas relacionadas à inadimplência de seus compradores em situações previstas na apólice, que podem incluir insolvência, inadimplência prolongada, falência e recuperação judicial.

Na prática, sua função vai além de uma eventual indenização.

Uma estratégia de Seguro de Crédito pode contribuir em diferentes etapas

  • Diagnóstico da carteira: análise da concentração de risco, perfil dos compradores, histórico de inadimplência e exposição financeira.
  • Estratégia e limites de crédito: definição de limites por cliente alinhados ao apetite de risco da empresa.
  • Estruturação da proteção: desenvolvimento de uma apólice aderente às características da operação.
  • Monitoramento contínuo: acompanhamento da carteira e da evolução do risco dos compradores.
  • Proteção dos recebíveis: redução do impacto financeiro em situações de inadimplência cobertas pela apólice.

Essa camada adicional permite que uma empresa tome decisões comerciais considerando não apenas quanto pode vender para determinado cliente, mas também quanto risco financeiro está assumindo ao realizar aquela venda.

Proteção do fluxo de caixa também é gestão de risco

Esse ponto ganha ainda mais importância diante de eventos como uma recuperação judicial.

Uma venda pode ter sido realizada. O produto pode ter sido entregue. A receita pode ter sido reconhecida.

Mas, se o comprador não pagar, o impacto aparece no caixa.

Dependendo do tamanho da exposição, uma inadimplência relevante pode consumir margem, comprometer capital de giro e afetar investimentos planejados.

É nesse contexto que o Seguro de Crédito ganha relevância: não para substituir a análise de crédito, mas para complementar a gestão de riscos, proteger o fluxo de caixa e reduzir a exposição financeira diante da inadimplência de clientes e de eventos como recuperações judiciais.

Uma estratégia que começa antes da apólice

Na Tailor Insurance, a visão sobre Seguro de Crédito está inserida em uma discussão mais ampla de gestão de riscos.

Antes de estruturar uma cobertura, é necessário compreender como a carteira está distribuída, quais compradores concentram maior exposição, qual é o histórico de inadimplência e quais limites fazem sentido para a realidade financeira da empresa.

A partir desse diagnóstico, a estratégia pode envolver definição de limites por cliente, estruturação personalizada da apólice, negociação com o mercado segurador e acompanhamento contínuo da carteira segurada.

A Tailor também desenvolveu o Playbook de Seguro de Crédito, um conteúdo voltado a empresas que desejam aprofundar a compreensão sobre gestão de crédito, proteção de recebíveis e utilização estratégica dessa modalidade.

Seguro de Crédito como parte da estratégia de risco

O risco raramente começa quando vira manchete.

Identificar exposições, acompanhar sua evolução e definir como protegê-las é o que transforma o Seguro de Crédito em uma ferramenta de gestão de riscos, proteção do fluxo de caixa e maior previsibilidade financeira.

O aprendizado vai além do varejo

O caso Casas Bahia não oferece uma explicação simples e tampouco pode ser atribuído a uma única decisão.

Ele mostra como transformações de mercado, estratégia, estrutura financeira, crédito e fatores externos podem se acumular e alterar progressivamente o perfil de risco de uma organização.

Para outras empresas, a reflexão talvez esteja justamente aí.

Gestão de riscos não significa evitar transformação. Significa compreender as exposições que surgem junto com ela.

E quando essas exposições envolvem vendas a prazo e concentração de recebíveis, o Seguro de Crédito pode ser uma ferramenta importante para complementar a análise de crédito, proteger o fluxo de caixa e reduzir o impacto financeiro de eventos como inadimplência e recuperações judiciais.

O risco raramente surge no momento em que vira manchete. Na maior parte das vezes, ele já vinha sendo construído muito antes.

Rodrigo Ávila

Sócio Diretor - Tailor Insurance

Robson Gomes

Seguro Crédito - Tailor Insurance